Ele sempre foi algu�m considerado especial.
Em todas as �pocas de sua vida, houve algo em que ele se destacasse.
Sempre o acharam um g�nio, e ele ent�o passou a dar prioridade ao boletim ao inv�s do garoto que o carregava.
Ele n�o teve nenhuma grande dificuldade em passar nas melhores Faculdades, e ent�o passou a dar prioridade � sua capacidade intelectual ao inv�s de seu ser como um todo.
Ele foi muito popular na Faculdade, conhecido por quase todos, conseguia fazer qualquer um rir, e por isso preferia muitas vezes mostrar o cara engra�ado e agrad�vel que era, o entertainer, e esquecer e esconder os pr�prios defeitos e sentimentos.
Ele teve �pocas fant�sticas com mulheres, se dando muito bem com elas, e por isso, ao sair � noite, ele dava prioridade ao conquistador e muitas vezes esquecia de se divertir apenas por estar com seus amigos.
Ele tamb�m teve suas �pocas em que amava sua apar�ncia, e era bastante elogiado por ela, seja devido a exerc�cios, seja devido ao seu gosto para moda, e ele muitas vezes colocou sua imagem � frente de seus pensamentos, � frente de sua alma.
No final da Faculdade, ele se orgulhava e mostrava aos outros que era praticamente um m�dico, mal se lembrando de que era necessario compartilhar com os outros o fato de ele ser uma pessoa comum por tr�s de sua profiss�o.
Ent�o houve uma �poca em que coisas terr�veis aconteceram com ele - algumas por sua culpa, outras n�o. Acontecimentos que o fizeram sofrer muito al�m do limite de dor e sofrimento que ele imaginara que aguentaria. Uma injusti�a cometida contra ele que chocou a todos ao seu redor. Uma doen�a al�rgica de pele que destruiu sua vaidade e auto estima. Um certo grau de isolamento social. Acontecimentos que, por um bom tempo, tiraram dele tudo o que ele achava que tinha de bom. E ele aguentou tudo isso sozinho, por um tempo consider�vel.
E, quando conseguiu sair de seu inferno pessoal, ele viu que nada sobrara para mostrar aos outros, nada do que ele usava, ora para se exibir, ora para apenas se sentir mais aceito, mais querido pelas outras pessoas.
E, como os horr�veis meses que passou em completo sofrimento anularam tudo de especial que ele achava que tinha, ele teve que confrontar e aprender a conviver com seu centro, seu self. Com a pessoa l� atr�s, o ser completo, que ele mantivera escondido tantas vezes porque queria mostrar s� o que convinha, s� o que achava bom dependendo da �poca.
Ele tamb�m percebeu que todo o amor verdadeiro que ele teve em sua vida (e ele teve bastante amor de outras pessoas, disso ele tamb�m se deu conta quando olhou para tr�s), seja de namoradas, amigas, amigos, familiares, sempre independeu de qualquer coisa que ele quis mostrar, de qualquer persona que ele assumiu. As pessoas que o amaram, e que o amam, iriam t�-lo feito de qualquer jeito, n�o importando o que ele estava fazendo, onde estava estudando, com quem estava saindo, o que ele tinha para se gabar, no que ele era bom ou ruim, se estava bonito ou feio. Essas pessoas, as que realmente valeram a pena em sua vida, sempre amaram o seu centro, sempre amaram o cara que ele n�o mostrava muito por a� com medo de desasgradar, com medo de ser rejeitado, com medo de ser inadequado, com medo de ser imperfeito.
E, por isso, ap�s ter sofrido mais do que julgava ser poss�vel sofrer, ele est� come�ando a enxergar melhor, Ele est� come�ando a perceber que o ser humano que ele � sempre tem de estar � frente de todo o resto, sempre tem de ser mais importante do que sua profiss�o, do que suas roupas, sua imagem, sua fixa��o por perfeccionismo, do que as coisas que ele faz bem, do que tudo o que ele considerava t�o importante, e que agora parece t�o f�til.
Ele est� come�ando a fazer as pazes com si mesmo. Ap�s tanto tempo. E ele teve de perder tudo para conseguir isso.
‘It’s so easy to be social
It’s so easy to be cool
Yeah it’s easy to be hungry
When you ain’t got shit to lose
And I wish that I could help you
With what you hope to find
But I’m still out here waiting
Watching reruns of my life
When you reach the point of breaking
Know it’s gonna take some time
To heal the broken memories
That another man would need
Just to survive…’
(Coma - Guns n Roses)