Resumo de 2003 (Wake Up, Neo)
Meu 2003 foi um inferno. Completo. Quase nada de bom.
Já postei isso em meu blog, mas acho que a relação que fiz de 2003 com a trilogia da Matrix resume bem o que passei.
E o que muita gente passa hoje em dia.
Obviamente muita gente sente empatia com a trajetória do Neo, o ser ‘escolhido’, o ‘especial’, algumas por razões parecidas com as minhas e outras não. Mas todas as impressões e auto-análises têm uma pitada de egocentrismo, certo?
1) Thomas Anderson é um homem sem propósito na vida, que não sabe o que está fazendo no mundo e queria que tudo fosse diferente. Ele sente que algo está errado com o mundo, até ele descobrir o ‘mundo real’ e achar um grande propósito para a vida dele no final do primeiro filme. Ele é o escolhido. Ele tem uma missão. Ele serve para alguma coisa.
Muita gente se sente assim, meio excluído, isolado do mundo. Okay, faz perfeito sentido no argumento de Matrix, onde de fato quem tem esse sentimento é quem percebe ‘a verdade’. Mas a inadequação de Neo em seu mundo foi obviamente inspirada no que muitos de nós sentimos, também. Qual o sentido de se sentir excluído do único lugar a que você realmente pertence? Eu sempre me senti assim, desde que me lembro por gente. Sempre houve uma inquietação, uma ponta de inadequação em mim. E nada apagava o facho. E as épocas em que eu estive mais feliz em minha vida foram tempos em que este sentimento esteve se manisfestando o menos possível.
2) Neo luta durante a maior parte do segundo filme, sem questionar seu propósito, certo de que a profecia se realizará. No final do filme, ele aprende que a tal profecia é uma mentira, apenas um novo sistema de controle das máquinas e de ‘Deus’ (o Arquiteto), e ele acaba fazendo o que ele acha certo, segue seus instintos. Ele percebe que não pode contar mais com nada e que ele é quem controla a sua vida através de suas escolhas. Ele não está feliz com isso, pois agora ele não tem mais certeza de nada, tudo pelo que ele lutava se revelou uma mentira. Apesar disso, percebe-se que ele ainda é motivado por esperança, por paixão. Ele ainda acha que pode fazer tudo dar certo, seja lá o que for ‘certo’.
Neo no segundo filme me lembra o que passei no final de 2002 e desse ano. Já andava mais amargurado que de costume devido à dermatite e os danos emocionais e físicos que ela começou a me causar, e no final de 2002 tive a decepção suprema de minha vida, ao ser podado na prova de residência mesmo tendo tirado uma boa nota. Foi como Neo com o Arquiteto - muito do que eu acreditava foi por água abaixo. Isso quase me destruiu e eu me reergui com o pensamento de que, continuando a acreditar, fazendo tudo de novo do jeito ‘certo’, dando o meu melhor, as coisas iriam dar certo para mim no final, não importa o que eu tinha sofrido, não importa se a culpa de eu ter sido podado fora minha ou não (Nietzsche dizia que não importa o que fazem com você, seja bom ou ruim, e sim o que você faz do que fazem com você). Eu retomaria a minha vida, mais forte devido ao que passei, e tudo ficaria bem. Eu faria tudo ainda melhor do que no tempo em que tudo dava certo para mim.
3) O terceiro filme se diferencia dos outros dois por sua extrema melancolia. Neo se mostra desesperançoso e, acima de tudo, cansado. Ele não aguenta mais lutar. Ele não quer mais derrotar as máquinas. Ele não quer mais salvar o mundo. Quando perguntado pelas máquinas o que ele quer (What do YOU want, Neo?), ele responde, ‘Peace’ (Paz). A princípio pode parecer que ele quer dizer a paz entre máquinas e humanos. Mas minha impressão tardia é que ele deseja a própria paz. Ele está esgotado. Mal se lamenta por ter se ferido horrivelmente e perdido a visão na luta com Bane. Mal sente a perda de Trinity. Ele marcha em direção a uma missão que ele sabe que não voltará. Passa o filme com a expressão do ‘herói trágico’ - que sabe que vai morrer - e ele não liga para isso. Ele não tem mais propósito, ele só quer que tudo acabe. Ele já sofreu demais, e, sentindo-se vazio e sem esperança, ele é tomado por compaixão - ele tenta fazer o bem maior, pois a compaixão verdadeira só aparece com sofrimento, e se torna ’selfless’. Ele já não liga para si mesmo, para seu bem estar, pois ele já perdeu tudo, já está ‘desenganado’, então ele tenta fazer o que acha preciso para conseguir fazer alguma diferença, não importando mais o que aconteça com ele. Quando o Agente Smith o interroga por não conseguir entender por que ele ainda luta (Ele pergunta, seria amor? esperança? seria pela humanidade?), a única coisa que Neo consegue responder é ‘Because I chose to’ (Porque eu escolhi). E ele encontra a paz no final do filme. Ele luta contra o seu demônio, o seu oposto (Smith), se funde a ele e aparentemente morre. E jaz morto em sua tumba, os braços abertos como uma cruz, mais uma das inúmeras referências bíblicas do filme.
No final das contas, me parece que Neo acha o ‘mundo real’ um lugar tão ou mais inóspito e difícil de viver que o mundo de mentirinha, a Matrix. A libertação final é a sua morte. Porque ele não aguenta mais.
A postura fatalista de Neo no terceiro filme é o que mais me incomoda. Ter um colapso emocional, um breakdown por semana, no mínimo, devido à minhas cruéis crises de dermatite, e tantos vezes ter acreditado que tudo iria dar certo de novo quando eu estava melhorando só para haver uma nova piora - todas essas vezes em que tive minhas esperanças renovadas, elas foram destruídas de novo, e foram muitas vezes - e isso acabou com a maioria de minhas crenças, meus sonhos, my spirit was broken. Não que eu ache que vá morrer, mas eu não acho mais que tudo acabará bem, aquele papo de ‘tudo dar certo no final’ que eu sempre acreditei até ano retrasado. Já não me imagino tendo um futuro feliz, não me imagino casado, nem tendo filhos, nem tendo uma carreira sólida ou uma vida social exuberante. Já não me imagino amando alguém. Nada saiu como eu esperava e agora eu já penso que nada vai sair algum dia. Eu só tento sobreviver a cada dia. Eu trabalho tentando fazer o meu melhor para conseguir ajudar quem realmente precisa. Eu me sinto cada vez mais nulo. Eu ajudo os outros e é frequente para mim receber elogios dos pacientes e amigos, mas isso, que antes fazia tão bem para meu ego, já não me provoca reação alguma. Não que minha vontade de ajudar tenha diminuído, acho que até aumentou, mas o motivo agora é sombrio, negativo: me sinto bem ajudando os outros porque eu não consigo me ajudar. Quero fazer alguma diferença na vida de outras pessoas porque não sei viver bem a minha vida. Porque eu não sei mais ‘me fazer’ bem.
Não que eu ache que seja o escolhido e seja tremendamente especial como Neo é levado a acreditar no primeiro filme (não nego que eu me achava assim na época em que vi Matrix pela primeira vez, há 3 anos e pouquinho - e preferia continuar achando isso hoje em dia, preferia continuar com meu pôster de ilusões pregado em minha parede), nem que esteja culpando alguém ou algo pela minha postura amargurada da vida de hoje em dia (além de mim e de minhas escolhas), afinal tive todas as boas oportunidades. Isto é meramente um desabafo, talvez um pedido de ajuda, porque eu sei que, apesar das coisas boas que esse período difícil me trouxe, como ter se tornado muito mais, hmmm, humanitário e com uma capacidade muito maior de empatizar com o sofrimento dos outros e de ajudar nisso, eu sei que encarar a minha existência como um ‘herói trágico’, que tenta fazer o melhor que pode mas que está fadado a um destino de desgraça não me faz bem e não me trará nada de bom.
Sofrimento pode ser benéfico. Ele tem até uma certa beleza, e é necessário às vezes. Lamentar pela perda de um ente querido, sofrer um trauma que te faça acordar para a vida, isso pode ter seu lado bom. Mas quando o sofrimento se torna crônico e dura tempo demais, uma hora não aguentamos mais - não fomos feitos para ficar tanto tempo nos sentindo desse jeito. Não há estrutura que aguente.
‘You cannot see beyond the choices you don’t understand.’ - The Oracle
‘It is not impossible. It is inevitable.’ - Agent Smith
‘It ends tonight.’ - Neo
Postei um texto parecido com esse em Novembro de 2003. Não estou assim agora, estou MUITO melhor. Mas acho que este texto resume bem o que passei e o que ainda passo em menor grau.



