Época esquisita. Anos esquisitos.
2002, obcecado em virar médico, montando toda a minha carreira na minha cabeça, idealista, não muito feliz por ter largado tudo, até os amigos, por achar que Medicina era a coisa mais importante do mundo e nada chegava perto.
2003, todos os meus sonhos médicos (os únicos na época) foram destruídos em um dia. No dia em que vi que meu nome não estava na lista de quem fora aprovado na residência, mesmo tirando nota para isso e sendo aluno da USP. Não foi culpa minha. E mesmo assim levou um ano e meio para eu conseguir pensar dessa forma. 2003, só dermatite atópica espalhada pelo corpo todo, noites sem sono, coçando, sangrando, e plantões. Muitos plantões. Se eu não tivesse a capacidade (que sei que poucos têm) de manter minha objetividade e racinalidade no trabalho mesmo num estado emocional péssimo, teria feito alguma merda.
2004, metade não vivido como 2003. 1 ano e meio de trabalho como médico, até hoje sem conseguir economizar um centavo, em parte por culpa minha (uma ou outra extravagância consumista, nada exagerado) e principalmente por remédios, médicos alternativos, psicoterapia.
2004, segunda metade. Juju me acordou para a vida me obrigando a sair em uma balada. Fazoko também, no dia seguinte. Dois amigos da internet com quem conversava quase todo dia há 2, 3 anos e não tinha conhecido ainda.
A partir daí, apesar das crises no meio do caminho, dos tropeços, estou voltando a ser o Kioshi ‘original’. O cara que tinha sido visto pela última vez lá pelos idos de 2001.
2004, setembro: achava que nunca mais iria passar por experiências como me apaixonar (ou mesmo ser considerado atraente por alguém que eu também achasse interessante, mesmo não tendo dado certo no fim) ou praticar atividade física de novo. Fui até DJ da Trash 80s por um dia. Penso até em fazer curso para virar instrutor de Spinning ano que vem, caso mantenha essa melhora e continue nesse ritmo nas aulas, o que vai me deixar com um condicionamento muito bom. Estou fazendo esgrima e achando o máximo.

Fazer planos. Ter metas, algum sonho, um pouco (ainda) de idealismo. Coisas que voltaram há poucos meses. Que achava que nunca mais teria. Dá para imaginar viver um ano e meio assim? A man without hope is a man without fear.
Só sobrou uma coisa. Sei que Medicina é fácil de estudar, só é extremamente extensa. Sei o que tenho que estudar, o tempo certo, a quantidade, para passar em tal carreira. Mas… Tenho medo. Medo da prova. Medo de novo fracasso. Posso fazer muito mais exercício do que qualquer um acha que aguento, posso ter mais pique e motivação para fazer as coisas que muita gente, posso conseguir empregos que meu padrinho, médico de 65 anos, não consegue por não ter os contatos que eu tenho. Posso até virar DJ residente de uma casa da Vila Olímpia se eu fizer um curso de 4 sábados.
Mas eu me cago de medo dessa prova ainda.
Há coisas que você apenas supera, nunca esquece. Será que está cedo demais, ainda, para eu conseguir deixar toda essa tortura que me impus para trás de vez? Para decidir definitivamente o que quero da Medicina? Por que eu acho que um ano a mais fará tanta diferença?

‘Fearless people,
Careless needle.
Harsh words spoken,
And lives are broken.
Forceful ageing,
Help me I’m fading.
Heaven’s waiting,
It’s time to move on.
Crossing that bridge,
With lessons I’ve learned.
Playing with fire,
And not getting burned.
I may not know what you’re going through.
But time is the space,
Between me and you.
Life carries on… it goes on.
Just say die,
And that would be pessimistic.
In your mind,
We can walk across the water.
Please don’t cry,
It’s just a prayer for the dying.
I just don’t know what’s got into me.
Been crossin’ that bridge,
With lessons I’ve learned.
…learned……………’
(Prayer For The Dying - Seal)