Kioshi, após ter ido à casa de seu grande amigo Rodrigo para ver seu novo computador ultra rápido e seus jogos incríveis, saiu com ele e mais alguns amigos que tinham em comum para um barzinho na Rua dos Pinheiros.
Lá, eles conversaram e riram muito, contando histórias passadas de relacionamentos que não deram certo, ‘causos’ sexuais que tiveram algo de cômico no meio, enfim, uma conversa agradável centrada em mulheres com tom predominantemente humorístico, um jeito tanto de compartilharem as experiêcias ‘bizarras’ que já tiveram como também uma forma de se aliviarem ao contar certas frustrações que já tiveram em relacionamentos passados sob um enfoque descontraído.
Kioshi, em sua constante e bem conhecida inquietação, como sempre tinha outros pensamentos em mente, mesmo quando estava rindo, conversando, mesmo quando estava completamente focado no papo. Sempre imaginou ser esta uma das razões pela qual, por mais amigos e pessoas que sempre tivera ao redor, independente de estar namorando ou não, ele sempre se sentira um pouco isolado, de certa forma que não conseguia explicar, de todo o mundo.
Pelo menos esta inquietação sempre lhe deu a vantagem, muito admirada por quem o conhece bem, de fazer e prestar atenção em várias coisas ao mesmo tempo. Desta vez, ele estava dirigindo seu olhar a uma menina morena, magra, de pele extremamente clara e compleição delicada, que estava sentada em frente a uma outra, esta com cabelos castanho claro, corpo curvilíneo, um verdadeiro mulherão, como comentou um de seus amigos ao reparar nos constantes e rápidos olhares de Kioshi para aquela mesa.
Seu amigo então sugeriu que usassem a tática básica de ‘chegar os dois nas duas minas’, e Kioshi concordou. Não saía há tempos, e além isso ele achava que estava sendo levemente correspondido pela menina de olhos negros e cabelos compridos que o deixou levemente fascinado.
Seu amigo, sempre o engraçadinho, chegou entretendo as duas, e logo começaram a conversar. Kioshi, após uma conversa superficial (como todas as conversas com estranhos em um bar) com a tal menina delicada e meio tímida, que se chamava Clara, e, meia hora passada, confessou a ela que estava ‘sem assunto’, mas que não queria sair de lá porque estava gostando demais daquele momento. Ela sorriu e passou sua mão sobre a dele, e ele também sorriu, e ambos se integraram ao animado bate-papo entre seu amigo e a irmã de Clara, Vanessa.
A noite foi obviamente muito agradável, e ao final dela seu amigo e Vanessa já estavam trocando beijos demorados, e Kioshi se despediu de Clara com um selinho, e voltou para casa tendo que aguentar seu amigo perguntando o que tinha acontecido com ele, que costumava ser o mais ‘rápido’ em ficar com alguém, além da tiração de sarro dos outros amigos, por ter de ‘aguentar’ uma noite inteira de conversa só em troca de um beijo mixuruco.
Mas Kioshi não se importou, só ria deles, e com eles. Eram seus amigos queridos e achar qualquer motivo para tirar uma com a cara do outro sempre fora prática de rotina entre eles.
Os quatro foram ao cinema dois dias depois, e viram um filme com uma cena que tocou Kioshi profundamente por sua beleza, por sua forma de demonstrar amor na forma mais pura, física e espiritual ao mesmo tempo. Comentou depois com Clara sobre a cena, e ela disse ter se sentido muito emocionada na hora. O outro casal mal viu o filme, e ao se despedir da menina universitária de apenas 19 anos que o fascinava, Kioshi finalmente a beijou ‘decentemente’, como seu amigo definiu depois.
Após chegar em casa (sorte dele de seu amigo morar perto, pois Kioshi tivera seu carro roubado há pouco), ele foi tomado por dúvidas: por que gostava tanto daquela menina? Sim, era uma menina, não uma mulher, relativamente ingênua (não que ele também não o fosse aos 19 anos), que o fazia rir facilmente, que tinha um entusiasmo, um deslumbramento enorme pela vida. Kioshi pensou se estaria em algum tipo de crise precoce de querer resgatar sua ‘juventude’, mesmo ainda tendo 27 anos. E, bem, ele sempre foi considerado e se condiderou uma pessoa empolgada e feliz também, nunca houve nada de terrivelmente errado com ele para ter um motivo destes para se aproximar de alguém. Ele não chegou a uma conclusão mais profunda, além de que simplesmente gostou imensamente dela.
À noite, ao estar naquele estado entre o despertar e o sono, foi interrompido por uma terrível aflição: a percepção de que ele tinha de aproveitar cada minuto de vida que lhe fosse prazeiroso, viver cada dia como se fosse o último, porque seus dias estavam contados. Ele não sabia o motivo disto, não sabia quanto tempo de ‘vida’ teria, ou mesmo o que significava isto. Só sabia que aquilo tudo era uma verdade inevitável.
Os dias passavam rápido em seu trabalho, meio período em um ambulatório, bem tranquilo para quem tinha trabalhado tanto em pronto socorro (Kioshi estava se dando uma folga de seu período workaholic, ele não lembrava o motivo que o levou a isso, mas parecia o certo a fazer), e passou a conhecer Clara cada vez melhor nessas duas semanas e a gostar cada vez mais dela. Seu jeito tímido em público encobria alguém que adorava rir de tudo, tinha sempre os olhos brilhando de entusiasmo e conseguia tirar qualquer resquício de tédio ao passar o dia com uma pessoa. Kioshi, que sempre tivera um jeito meio ‘bobo alegre’, como ele definia, foi ainda mais influenciado por Clara nesse sentido, e, como estavam sempre com outros dois casais, o de seu amigo e sua ‘cunhada’, e o de seu melhor amigo da Faculdade e sua noiva, logo foram apelidados por eles de ‘casal sem noção’. Seus amigos diziam que os casais adolescentes de 14, 15 anos que viam por aí pareciam agir de forma mais séria e adulta que Kioshi e Clara.
Foi voltando a pé de um bar com esses amigos que o casal levou o maior susto de seu curto relacionamento até então: Kioshi e Clara haviam ficado para trás, rindo de alguma coisa juntos, falando besteira, bêbados, e seus amigos, já acostumados com o comportamento deles, não ligaram e acharam normal e rotineiro, pensaram que logo eles voltariam correndo para alcançá-los.
Foi quando eles presenciaram dois indivíduos tentando arrombar um Gol parado na esquina. Kioshi puxou Clara para andar rápido e silenciosamente, mas ela, em sua ingenuidade e levemente bêbada, acabou por falar em voz alta ‘Olha! Estão roubando o carro!’, o que deixou os dois homens extremamente nervosos, gritando que iriam pegá-los (falando extremamente rápido e num tom de raiva anormal, o que fez Kioshi suspeitar que estavam drogados). Um deles deu um tiro na direção do casal, que atravessou os vidros do carro que tentavam arrombar, e Clara caiu em meio a todo o barulho – os gritos, o vidro se estilhaçando, o tiro. Os homens saíram correndo, e Kioshi, tremendo nervosamente mais do que achara ser possível, viu Clara caída com um pouco de sangue em sua testa.
Gritou para os amigos voltarem, checou os sinais vitais dela, completamente em pânico porém tentando manter seu raciocínio médico, e constatou que o sangue vinha apenas de uma laceração por Clara ter, de fato, desmaiado. Sabe-se lá onde o tiro foi parar, e em um minuto Clara despertou.
Kioshi olhou em seus grandes olhos negros e a abraçou como nunca abraçara alguém antes. ‘Eu não a perdi’, pensou. E, ao abraçá-la, ambos chorando, ele se sentiu em casa. Ele se sentiu no lugar mais seguro do mundo ao se entregar completamente nos braços dela. Ele não se sentiu mais sozinho da forma que não sabia explicar, como em toda a sua vida, pela primeira vez. PELA PRIMEIRA VEZ EM SUA VIDA, ELE NÃO ESTAVA SOZINHO. O inexplicável isolamento que parecia fazer parte de sua alma sumiu.
Na semana seguinte, foram viajar com outros amigos para um semi-albergue (semi porque havia chalés, onde eles ficaram) no meio da natureza, que Kioshi sentia tanta falta em São Paulo, para mudar um pouco de ambiente e tentar esquecer de vez a parte ruim do ocorrido naquela noite.
Havia um local, a céu aberto, onde as pessoas hospedadas se reuniam à tarde e à noite para se conhecer e conversar. Na segunda tarde, lá pelas três horas, teve início uma chuva que em alguns minutos se transformou em um temporal. Muitas pessoas estavam lá na hora, pois havia um pessoal que tinha uma banda e estavam tocando versões acústicas de clássicos do Led Zeppelin e Doors. Todos saíram correndo, menos Kioshi e Clara.
Olharam um para o outro e se lembraram da cena do filme que mexeu tanto com ambos: uma tempestade trovejante no meio de uma festa, todos procurando abrigo, e os personagens principais, um casal, se entreolharam e resolveram fazer amor no meio da tempestade. Aquela cena mexera muito com Kioshi, talvez porque mostrava que um momento de extremo prazer é maior que qualquer adversidade, ou talvez por algum clichê do tipo ‘o amor supera tudo’, ele não sabia bem. Só sabia que o tocou imensamente.
E, nessa hora, o pensamento de Kioshi e Clara era o mesmo, e eles fizeram sexo pela primeira vez. Uma sensação gélida, a mesma que ele tivera na noite em que teve aquela terrível percepção que isso não duraria, percorreu a espinha de Kioshi quando voltavam para o chalé, mas ele não ligou, pois estava feliz.
Voltaram de viagem, Kioshi conheceu a mãe de Clara, que o olhou com certa suspeita, talvez por ter identificado mais o lado moleque dele do que suas ‘credenciais’ por ser médico e coisa e tal. Afinal, do jeito que ele agia ao lado de Clara, ficava difícil dizer quem era mais velho ou mais novo.
Ele deixou a casa dela satisfeito, pensando que nunca tinha considerado ficar com alguém por muito tempo, talvez (era cedo para dizer) por boa parte de sua vida, e se sentia outra pessoa desde que sua sensação de isolamento se dissipara na noite em que levou aquele terrível susto.
—————————————————
Bom, depois disso eu acordei. Tive a crise de dermatite habitual pós despertar, enquanto pensava ‘eu não acredito que eu isso foi só uma porra de um sonho’.
Já tive sonhos que pareceram ultra realistas, mas nunca que duraram ‘um mês’ (e realmente pareceu que vivi um mês, mal acreditei que foi ontem que fui à casa do meu amigo ver o computador dele – e depois fui dormir – quando no sonho saí com ele e mais dois amigos para um bar). Também nunca tive um sonho ‘real’ com personagens/pessoas ‘inventadas’, e nunca consegui sentir uma sensação como a que senti neste, de não estar sozinho no mundo (sim, sempre me senti assim de certa forma). Até uma cena de filme eu inventei.
Por isso tive de transcrevê-lo, mesmo tendo sido só um sonho. E houve muito, muito mais detalhes que deixei de colocar aqui…
Mas não posso dizer que acordei feliz ao realizar que ainda estou nessa vida de ‘survival mode’ na qual não vejo sentido ou propósito algum além de tentar passar cada dia da maneira menos sofrida possível.
‘Then the rainstorm came, over me
And I felt my spirit break
I had lost all of my, belief you see
And realized my mistake
But time through a prayer, to me
And all around me became still
I need love, love’s divine
Please forgive me now I see that I’ve been blind
Give me love, love is what I need to help me know my name
Through the rainstorm came sanctuary
And I felt my spirit fly
I had found all of my reality
I realize what it takes
‘Cause I need love, love’s divine
Please forgive me now I see that I’ve been blind
Give me love, love is what I need to help me know my name
Oh I, don’t bet (don’t bend), don’t break (don’t break)
Show me how to live and promise me you won’t forsake
‘Cause love can help me know my name
Well I try to say there’s nothing wrong
But inside I felt me lying all along
But the message here was plain to see
Believe me
‘Cause I need love, love’s divine
Please forgive me now I see that I’ve been blind
Give me love, love is what I need to help me know my name
Oh I, don’t bet (don’t bend), don’t break (don’t break)
Show me how to live and promise me you won’t forsake
‘Cause love can help me know my name
Love can help me know my name.’
(Love’s Divine - Seal)