O Manual.
Sabe, eu fico uma semana bem e depois volto a ficar muito mal. E cada vez mais, parece mais difícil acreditar que chegará o dia em que eu ficarei bem, ou ao menos razoavelmente bem para funcionar como um ser humano normal, por anos e anos. Ou mesmo meses.
Sabe, isto não estava no manual.
O meu manual dizia: ‘Você vai fazer tudo o que quiser da vida, se puder um bom colégio, tente entrar em uma faculdade, trabalhe, tenha uns rolos com garotas, namore um pouco, tome alguns foras significativos, tenha seu coração partido algumas vezes, parta o coração de outras pessoas, continue amigo de quem você se dá tão bem e confie nas pessoas, dê a elas o benefício da dúvida, não tenha preconceito, ajude quem você quiser quando puder e se esforce mais para isso se for alguém com quem você realmente se importa. Trabalhe bastante, mas trabalhe em algo que você goste. Tenha algumas brigas feias, com amigos e família, mas supere isto e sempre tente perdoar ou ser perdoado.
Estude, estude, estude algo que te estimule. Aprenda todas as línguas que você quiser. Faça bastante sexo, não deixe escapar aquela moça que pode ser sua alma gêmea, compre um carrinho legal quando você puder, nunca minta nem seja arrogante ou convencido, e, principalmente, seja generoso.’
Pois é. Isso é o que o ‘manual’ dizia. Agora, ficar praticamente inutilizado por uma doença de pele? Cacete, hein. Se um ‘eu’ do futuro me dissesse que eu iria parar de trabalhar e ficar só vendo TV e em casa por causa da dermatite que já tanto me incomodava em, digamos, 2003, eu iria rir da cara dele.
O manual não previa isso. E eu não sei mais o que fazer.
Eu só quero uma vida próxima do normal, sabe? Eu não me interesso mais em saber se sou forte ou não por estar aguentando isso, se um amigo meu ou outro que me viu em crise disse que não aguentaria isso e eu sou muito corajoso ou coisa e tal. Isso não serve mais para mim. Eu só quero que isso passe. Eu não quero viver sem saber se quando vou melhorar.
Sabe, se minha doença fosse fatal, talvez fosse melhor. Pode ser um absurdo eu escrever isto, mas talvez fosse sim. Porque eu nunca tive medo de nada (além do fracasso), e não tenho medo de morrer. Pelo menos eu poderia dizer ‘Porra, vou morrer, mas pelo menos eu dei tudo de mim quando pude’.
Mas não. Eu fico aqui, enojado comigo mesmo, andando curvado para não esticar minha barriga ferida e com as pernas dobradas porque há feridas atrás dos meus joelhos. Isso na maioria dos dias, felizmente não hoje.
Mas eu fico um dia bom e três dias depois já posso estar péssimo.
E me pergunto quanta merda ainda vou ter que aguentar na vida. Como alguma coisa pôde me ferrar de tal forma? Quando isso vai acabar?
eu tou tentando remar meu barco
eu tou tentando armar um barraco
eu tou tentando não cair no buraco
eu tou tentando tirar o atraso
eu tou tentando te dar um abraço
eu tou penando pra driblar o fracasso
eu tou brigando pra enfrentar o cangaço
eu tou tentando ser brasileiro
eu tou tentando saber o que é isso
eu tou tentando ficar com Deus
eu tou tentando que Ele fique comigo
eu tou fincando meus pés no chão
eu tou tentando ganhar um milhão
eu tou tentando ter mais culhão
eu tou treinando pra ser campeão
eu tou tentando ser feliz
eu tou tentando te fazer feliz(bis)
eu tou tentando entrar em forma
eu tou tentando enganar a morte
eu tou tentando ser atuante
eu tou tentando ser boa amante
eu tou tentando criar meu filho
eu tou tentando fazer meu filme
eu tou chutando pra marcar um gol
eu tou vivendo de rock ‘n roll’
(Eu Tou Tentando - Kid Abelha)



